Baseado em Fato Real


Eu estava muito calmamente deitada, esgueirando meu corpo ao sol. Aquele sol languido, suave, e quente. Fechei os olhos e saboreei o momento, a tranquilidade, e estiquei ainda mais o meu corpo, virando a minha barriga para os raios solares. Eu estava feliz. Não precisava mais nada. Tinha a família perfeita, os amigos perfeitos, a casa perfeita. Nada me incomodava. O burburinho na piscina dos amigos do Jorginho, as risadas, os mergulhos; tudo era cântico de paz para mim... Retornei ao meu relaxamento, estendi o meu corpo branco lateralmente com um suspiro... Dê longe ouvi Jorginho dizer: “Cacau só quer dormir...”. Abri suavemente meus olhos, e o contemplei, “quem disse que estou dormindo” pensei... Virei novamente...
Jorginho sempre foi assim, falante, brincalhão, muitos amigos. Ele fazia a nossa casa ser muito movimentada; eu achava que às vezes parecia mais um albergue, pois alguns vinham e ficavam alguns dias. Eu sempre tratei a todos com carinho, afinal eram os amigos do Jorginho. A Erika, já era diferente, gostava mais de sair do que ficar em casa. Suas amigas apenas ficavam para uma troca de roupa, e lá ia novamente à trupe para conquistar novos mundos. Erika sempre foi mais vaidosa, tinha mania com sapatos. Tinha tantos sapatos, e pasmem só dois pés. Porque dois pés precisavam de centenas de sapatos, eu nunca vou entender... Isadora é a caçulinha, pequena, ainda envolta em seus brinquedos, recebendo mimos e carinhos de todos nós. Ela tinha sempre um sorriso aberto para todos os rostos, conhecido ou os nem tanto...
Ouvi um carro, abri os olhos. Não há como não ser... É Paulo, o barulho é caraterístico, tem um ronco com um leve agudo. Mas não é só isso o cheiro dele já se fazia presente. Isso me despertou. Paulo vinha de seu dia de trabalho. Devia estar cansado, precisava da minha atenção. E diga-se uma verdade, eu amo Paulo com toda a força do meu coração. Aquele homem alto, e de mãos macias. Tão carinho, brincalhão, alegre. Quem não amaria Paulo? Acho que ninguém...
Ergui meu corpo, confesso com certa preguiça. Sentei um pouco para observar: Jorginho na piscina, Isadora brincando com a boneca Tutinha.
Fiquei em pé, o carro de Paulo estava quase chegando. O cheiro do motor se faz presente.
Mas algo me faz espanto, quem seria próximo com ar tão rançoso? Estranho...
O carro para em frente ao portão ainda fechado. Vozes estranhas gritam em tom de cobiça: “Assalto, assalto! Entrega tudo logo! Eu vou te matar!”...
Aproximo-me nervosamente do portão fechado. Ouço gemidos de Marisa, e Paulo pedindo calma. Sinto o perigo. Entro em desespero. “Eles estão em perigo!!! Que Deus me ajude!!! Abra este maldito portão, por favor!!! Abra, Abra, ABRA!!! “
Sinto Paulo se aproximar tremulo da fechadura. “ABRA PAULO!!! DEUS, FAÇA ELE ABRIR!!!”.
A porta se rompe, nem olho para Paulo. Em segundos me jogo com todas as minhas forças sobre o derradeiro infame. Não penso, reajo com toda astucia e destreza que sou capaz. Ele vai ao chão, rendido. Grita, reage. Mas é minha presa...
Não sei como, nem da onde, sinto algo. Minha atenção é roubada. Outro armado. Dirijo-me a ele. Nesse instante, o que está caído levanta. Os dois correm. “Cretinos, cafajestes, eu pego vocês!” Eu corro atrás dos dois... Uma quadra, duas quadras... Mas, aos poucos começo a me sentir sem forças... Reajo, luto, continuo... Mas não estou conseguindo, minhas pernas começam a falhar... “Não, agora não. Preciso pega-los...” Começo a cair. Vejo o vermelho...“Paulo!!! Paulo!!!” Está aqui, sobre mim. Afagando-me, cobrindo-me de lágrimas molhadas... Abraça-me e chora como uma criança. “Eu te amo, Paulo. Ninguém fará mal a você”.
Ele me pega ao colo, e chora. Tem muitas pessoas estranhas em volta. As crianças, Marisa, choram também. Eu tento me mover, pedir calma e não consigo...
Ao longe escuto uma voz desconhecida falar: “está tudo bem? Levaram alguma coisa?”. 
Paulo murmura: “Minha amada Cacau... Mataram a minha Cacau... Atiraram nela, ela ainda correu atrás deles, e tombou morta... Ela nos salvou. Sempre foi mansinha. Nunca pensei que reagisse. Mas nos defendeu a todos. E agora... A nossa amada Pit Bull morreu...”.
Paulo me levou em seus braços meigamente para casa. Colocou-me no mesmo lugar em eu que tomava sol. E ali, no lugar que mais gostava de ficar, ele me enterrou...
E aqui fiquei eu, vendo a minha família amada, sentindo o sol.